sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

estanca

De pé, ao lado da porta, me olhava com a dor de um adeus. Eu, sem ter certeza de nada, só sabia colocar os pensamentos pra brigar dentro das infinidades das minhas idéias. Pra que você foi construir aquelas imagens estranahs na minha cabeça? Eu as vi como um filme numa película antiga, em decomposição. Você me esperva diante do carro pra me levar pra sempre pra um lugar bem longe, de onde nunca sairíamos... Mas agora resta silêncio, diria Shakespeare, resta tanto e tão pouco, tão distante... As lembranças dos futuros imaginados... Resta silêncio.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Passarinho na gaiola não é passarinho



Piu piu piu, canta o passarinho todas as manhãs, de dentro de sua gaiola, sua pequena jaula que o impede de conhecer o mundo, mas que não o tira o direito de saber que o sol estava chegando. Ele conhece tanto o mundo à sua volta, que mesmo sem explorá-lo, pode senti-lo e se conectar com ele. E toda vez que a menina aproxima sua mão daquelas grades, ele canta pedindo socorro, suplicando liberdade. Ela sorri, como se pudesse compreendê-lo, mas por mais alto e frenético que fosse seu apelo, eles não falam a mesma língua. Ela o vê com ternura, carinho e amor, ele a vê como culpada por sua reclusão, uma sequestradora de sua liberdade, a odeia completamente. Sonha em desvendar os mistérios que suas asas permitiriam e todo dia, pensa em como escapar da prisão. Ele não faz sentido sem voar. Até que um dia, uma manhã sem cor, um céu desesperançoso, o passarinho não se move mais, não canta, não esboça nenhuma reação com a aproximação da menina que tanto o ama. Ela observa os olhos do bichinho que aprisionara em seu amor e finalmente entende o seu egoísmo. Movida por um sentimento intenso e ambíguo, ela decide abrir mão da companhia daquele pequeno indefeso em nome de sua felicidade, devolver o direito do pássaro. Abre a portinha que o separava de sua essência e vai embora com lágrimas nos olhos. O pequeno, incrédulo, se aproxima da saída do cárcere e encara a imensidão do céu, as cores que a natureza pintava em suas retinas, as formas e as curvas da vida. Enxerga agora sem o obstáculo das grades, ele observa as árvores e os bichos desfrutando de sua liberdade e esboça batidas de asas. Poderia ficar ali, naquela porta presenteando sua visão com todas aquelas descobertas, mas um desejo incontido o faz sacudir sua estrutura sem que ele pudesse controlar seus movimentos. Anseia por sentir o ar por entre suas penas. Subitamente, dá-se conta da distância que o separa do chão, o que o atira para o fundo da gaiola. Fica inerte rendendo-se ao medo, fecha os olhos e se encolhe de pavor... Mas logo respira, toma coragem e volta para o limite entre a jaula e o mundo. Bate mais algumas vezes as suas asas, preparando-se para nunca mais voltar àquele cubículo, mas ele não consegue se aproximar do céu. Pois resolve traçar antes uma meta e se pergunta: pra onde eu quero voar? Pra onde eu quero voar? Essa questão ecoa infinitamente sem resposta, até que opta por um plano a curto prazo: primeiro eu vou voar até aquela árvore. É aí que ele se lança no ar e bate freneticamente suas belas asas e se despede de sua gaiola em queda livre ao chão. Machuca-se, sente-se um outro bicho, que não um com asas. Não compreende seu fracasso. Insiste. Nada. Nem uma ameaça de vitória contra a gravidade. Percebe que todo o seu anseio que perdurou ao longo de sua existência era vão. Por uns instantes, ele quer voltar pra seu conforto, sob os cuidados daquelas mãos carinhosas que o protegiam dos perigos, das quedas, mas rapidamente se motiva em sua perseverança: dentro de uma gaiola eu não sou um pássaro. Aquele pequeno e frágil bichano prefere a morte à não ter o direito de vida. Se não pode voar, é com suas patas que vai se locomover e finalmente conhecer o mundo que o rodeia, ainda que isso o leve ao fim. Caminhando em suas patas, o pássaro vai embora definitivamente, decidido a bater suas asas todos os dias até ser capaz de honra-las, alçar voo e descobrir o seu destino.

Stephanie Serrat

domingo, 2 de outubro de 2011

A beleza das asas

Enquanto toda a humanidade assistia pela tv os gritos estranhos de pessoas sofridas, jogando-se das janelas de um enorme prédio burguês em chamas, ela se levantava de um sono profundo e tranquilo. Seus olhos brilhavam como os de um bebê recém nascido. Ela era dona da juventude eterna, a leveza da alma. Afagava sua própria pele para suprir a ausência de um carinho qualquer, que se perdera pelas tentações que estão sempre nos esperando em alguma garrafa de desespero. Ela sempre se livrava daquilo que não mais poderia fazer bem aos seus 20 anos. Uma menina com cheiro de virgindade, embora já tivesse se entregado pra alguns barbudos... Uma mulher inflamável, quando optava por isso. Ela poderia caber num copo de wisky, num doce gosto de chocolate debaixo das cobertas, numa cena Almodóvar, nas flutuantes palavras buarquianas... Ela era tantas... Seus lençois perolados a disputavam com olhares de desejo, ou de inveja. Ela podia perceber, mas ela tinha o poder de escolher quem ela queria vestir hoje e quem ela queria  devorar, só que o poder maior estava em escolher o que ela queria enxergar e escutar. Ela sabia com muita precisão que nos olhos e ouvidos de toda a humanidade mortal existiam portas, tão ignoradas que muitas delas nunca haviam sido abertas, nem ao menos tocadas. Maçanetas intactas. Isso era o poder, era saber. Tamanho era seu domínio nesse assunto, que ela era capaz de possuir pessoas com facilidade. Podia atrair quem quisesse pra sua teia, como uma viúva negra. Mas não era isso que fazia. Ela simplesmente tinha consciência desse poder, mas não utilizava pra fins totalmente egocêntricos, não desejava ferir ninguém. Pretendia alimentar seu ego, pois não há outra alternativa nessa vida, mas sem que outros egos fossem prejudicados. Fingia-se normal, para se manter sociável, fingia-se igual, não gostava de camisas de força. A menina, tão nova, já possuia asas e voava discretamente, sobre as pequenas cabeças de todos os outros.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

10 miojos e 2 lasanhas congeladas

Helena: E aí?
Beto: Ela me disse que eu só tinha mais 30 minutos de vida.
Helena: 30 minutos?
Beto: É.
Helena: Mas 30 minutos é muita coisa.
Beto: Que isso, Helena, 30 minutos num é nem um tempo de um jogo de futebol.
Helena: Beto, 30 minutos dá pra fazer 10 miojos e 2 lasanhas congeladas.
Beto: Era isso que você ia fazer com os seus últimos 30 minutos?
Helena não responde.
Beto: Helena, me diz... Se você só tivesse mais 30 minutos, você ia fazer 10 miojos e 2 lasanhas congeladas?
Helena: O que você ia fazer, Beto? Ia comprar batatas?
Beto: Ia ser interessante...
Helena: Ah, faça-me o favor!
Beto: Ué... Seria interessante, mas não seria isso que eu iria fazer.
Helena: O que então?
Beto: Eu ia procurar o amor da minha vida.
Helena: Em 30 minutos?
Beto: Que que tem?
Helena: Ai, Beto!
Beto: O que foi?
Helena: Coisa mais idiota de dizer...
Beto: Nossa, você já foi mais romântica.
Helena: E você já foi menos infantil.
Beto: Você acha o amor da sua vida infantil?
Helena: Eu não acredito em amor da vida desde que eu descobri que o homem da minha vida era gay.
Beto: Quer dizer que eu não sou o homem da sua vida?
Helena: Não.
Beto: Se eu tivesse mais 30 minutos agora, sabe o que eu faria?
Helena: Sexo!
Beto: Eu ia comprar batatas.

domingo, 18 de setembro de 2011

Antes que a feira acabe

BETO: Eu olho pra essa parede e eu n entendo nada... Helena, eu não entendo nada!
HELENA: Com tanto lugar pra gente morar, ne?
BETO: É...
HELENA: O pior de tudo isso é que tem coisas ruins aqui também... Eu queria lembrar só das coisas boas!
BETO: É... Eu também. As janelas.
HELENA: Se nós nos olharmos, já será suficiente, não precisamos lembrar.
BETO: Você é inacreditável. Helena, você é a mulher da minha vida, eu poderia ficar o resto dos meus dias aqui nesse apartamento olhando pra você e notando que, com todos os defeitos que eu já conheço em você, eu te amo. Mesmo que amanhã eu sinta carência de coisas que eu não posso encontrar em você e que eventualmente eu busque isso em outra mulher, sem concluir nada, apenas busque... Eu sei que eu te amo e que mais cedo ou mais tarde eu vou precisar de você. Mas agora eu preciso ir. Eu preciso comprar batatas.
HELENA: Eu também tenho um monte de coisas pra fazer, mas eu queria ficar aqui.
BETO: Helena, você não compreende? Eu preciso comprar batatas. A feira acaba em meia hora.
HELENA: Beto, eu queria que você fosse menos egoísta, que me amasse um pouco menos pra te alimentar e um pouco mais incondicionalmente.
BETO: Isso é impossível, meu amor.
HELENA: É, eu já sei o que você acha... Um belo dia sai de casa pra tomar um chopp com a sua amiguinha linda e metida a filósofa e ela te convence de que tudo que você faz na vida é pra você e só, simplesmente não há nada que se possa fazer pelo outro. Essa garotinha pensa que é quem? Einstein?
BETO: Não, Helena, Einstein acreditava que nós poderíamos nos livrar de nossos egos e ele estava errado.
HELENA: Não sei se foi exatamente isso que ele disse...
BETO: Eu preciso ir, as batatas me esperam.
HELENA: Eu sei, eu não estou te segurando. Com tanta coisa pra gente fazer, você tem que inventar de comprar batatas agora?
BETO: Mas se eu não comprar...
HELENA: A feira acaba... Compra depois, Beto, nas Sendas!
BETO: Prefiro que meu dinheiro vá pro bolso do Djanir do que pro senhor Sendas. Sei lá qual o nome do milionário que vive às custas das nossas compras do mês.
HELENA: E as caixas do supermercado? O Fulaninho Sendas paga o salário das coitadas, você prefere o Djanir? Ele é um só.
BETO: Qual é o problema de eu querer comprar na feira? Você acha que eu vou encontrar alguma mulher interessante lá e largar você? Eu quero comprar batatas, Helena, eu preciso... E além do mais, o Djanir é um cara incrível, você precisa conhecer. Ta vendo, agora a feira está quase acabando. Eu não consigo sair.
HELENA: Vai, Beto, vai comprar suas batatas. Um dia você acaba voltando.
BETO: Então é isso?
HELENA: É isso.
BETO: Você devia reformar o apartamento.
HELENA: Vai logo, antes que a feira acabe.
BETO: Eu vou. Adeus.
(agradecimentos: Karla Gasparini, Albert Einstein, Arthur Sendas e aos "Djanirs" que vendem seus peixes nas feiras da vida)

domingo, 11 de setembro de 2011

Animal irracional


Juvenal acorda exausto e irritado.  São 6 da manha de sábado e ele desperta, mas não porque mora muito longe do trabalho, nem porque teria uma reunião as 8, ele também não é nenhum escravo do sistema capitalista que trabalha de domingo a domingo sem ganhar um real... Juvenal se levanta de sua cama classe media, porque algum infeliz bate em sua porta enlouquecidamente, ininterruptamente. “Que inferno”, exclama. Dirige-se as pressas para a entrada de sua casa bagunçada, enquanto veste sua bermuda. Mas ao encostar a mão na maçaneta, Juvenal pensa... Quem poderia ser? A essa hora, certamente não seria alguém que lhe interessasse receber em casa. Poderia ser algum fanático religioso pregando as palavras de deus, ou quem sabe a síndica do prédio cobrando o pagamento do inflacionado condomínio, dinheiro certamente destinado `as plásticas e `a academia da dondoca do 401. “É, não valeria a pena abrir a porta” decide. Entretanto, não conseguiria dormir enquanto aquela pessoa não parasse de esmurrar seus tímpanos. Juvenal mete a mão na maçaneta num impulso. “Dane-se”, pensa. “Finalmente”, ela grita impaciente, adentrando o apartamento de Juvenal, sem nem perceber sua cara amassada. Ela certamente não havia dormido aquela noite, ainda dava pra sentir o cheiro do álcool. Ela se senta no sofá como se frequentasse aquela casa, livra-se de seus saltos e ascende um cigarro. “Então, Juvenal, eu tava passando aqui e me ocorreu: caraca, o Juvenal é um homem lindo, relativamente bem sucedido, bem nascido, afinal de contas, porque diabos seus pais te deram esse nome horroroso?“, ela pergunta com intimidade e sem nenhuma pena do homem, mas Juvenal, pra sorte dos dois, não havia prestado atenção em nenhuma das palavras indelicadas daquela mulher. Ele não queria saber muito bem o que ela tinha a dizer naquele momento, ele apenas prestava atenção naquelas belas pernas expostas por uma micro-saia que presenteava suas retinas. A essa altura, ele já não se importava de ter sido acordado brutalmente, queria mergulhar naquelas pernas. Ela era sempre tão séria, tão... coberta. Vestida com os padrões pudicos de uma advogada recém formada. Era a primeira vez que ele podia ver a mulher que tanto admirava tão sensual e bem no seu sofá. Indagava-se o que aquele furacão de mulher estava fazendo aquela hora do dia em sua casa, depois de uma noite certamente frustrada. Ela o observa esperando uma resposta para a sua pergunta sem sentido. “Quer uma água?”, ele pergunta. “Você certamente esta se perguntando o que eu vim fazer aqui, não é, Juvenal”, ela diz levantando-se e caminhando pra perto dele. “Posso te chamar de Ju?” ela pergunta. Ele faz que sim com a cabeça, não consegue reagir, um pateta! Nunca havia chegado tão perto dela. Ela percebe o nervosismo dele e ri. De repente ela se dá conta de que nenhum dos homens que haviam importunado seus ouvidos durante a noite a desejavam tanto quanto Juvenal, tremulo. Decidida a alimentar seu ego, ela agarra a gola da blusa daquele homem sem ação e tasca-lhe um beijo decididamente demorado, desses de final de filme, manchando a boca dele com seu batom vermelho. Os dois se deliciam durante alguns instantes, e no meio daquele beijo, Juvenal que antes flutuava nas nuvens, começa a se sentir o homem mais idiota do mundo. “Que imbecilidade da minha parte nunca ter beijado essa mulher”, ele não sabia o nome dela e também não se preocupava com isso nesse momento. Aquelas bocas se entendiam melhor do que qualquer outro par. Foi o melhor beijo da vida daquele recente casal. Mas Juvenal, movido por um orgulho masculino irracional, estava prestes a fazer a maior burrada de sua existência medíocre, da qual se arrependeria ate o fim de seus dias. “Eu não devia ter feito isso!”, pensaria ele aos 83 anos, ao lado de Wandinha, com quem ficou casado durante longos e entediantes anos sem muitos riscos e aventuras. Mas ele fez. Xingando-se por dentro, sentia-se um banana, aquela mulher que ele desejava, sonhava e tocava punheta pensando nela há 3 anos havia tomado uma atitude que ele, em seus inseguros 28 anos de vida nunca tinha tido coragem de tomar. Ele não havia nem ao menos notado o interesse dela por ele. Precisava agir, pra sentir-se homem, sentir-se dono daquela situação. Sem muito pensar, Juvenal, imbecil, pega aquela mulher nos braços, a porta de sua casa ainda aberta e ele a coloca pra fora. Fecha-se em seu apartamento sentindo-se o homem mais seguro e desejado do mundo. Que animal, Juvenal. O irracional ainda abre a porta novamente, beija a boca dela, que aceita, mas não entende, bate a porta de novo e respira aliviado. Exalando testosterona, o imbecil do Juvenal exclama: sou foda!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sombra

Ela se sentia fora de si, como se a alma e o corpo estivessem brigando e não pudessem mais dividir o mesmo espaço. Ela, mora numa casa de vinhos. Usa um vestido vermelho bem curto e colado no corpo, pó saindo pelas narinas, não aguenta o mundo real... Cabelos negros e desgrenhados, sorriso infantil, olhar perdido. Ela se mata aos poucos, não entende sua própria importância. E as pessoas ao redor a observam e querem ouvi-la. Há também uma torcida constante pra que ela esteja sempre tropeçando em suas próprias pernas. Ela já não sabe se amar. Bebe-se, fuma-se, cheira-se, vai sendo consumida por substâncias venenosas que se instalam nas esquinas de seu corpo e a corroem por dentro. A fumaça espera que ela acenda o cigarro, o vinho grita seu nome, mas ela, como poucas vezes na vida, ignora. Sozinha em sua casa de vinho, ela mergulha num punhal.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Vermelho

Ela se deita no sofá vermelho
com medo do que está por vir
nem o espelho a quer refletir

ela queria um céu mais azul
um dia sem cigarros amargurados
vengonha de tudo que havia largado

ela não se sabe, não se vê
ela nem se procura encontrar
tranca suas dores pra não as chorar

quanto tempo ainda tenho?
só precisa descobrir o que está por vir
não quer nas entranhas da terra dormir

Eu não quero, grita ela
tão bela, chorosa e desmantelada
a bela menina despetalada

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Uma taça de vinho

Debruçada num universo criado, uma percepção diferenciada do mundo brinda a minha existência.
Eu agradeço por ser e poder ser, se tem algo de que me orgulho é sorrir.
Eu tenho orgulho de me erguer da cama e olhar pro céu, encantada com a vida.
Como uma criança que caiu do útero do berço e resolveu tentar descobrir o que eram aquelas coisas que a cercavam.
Claro que tem cores que ajudam as retinas a terem mais vontade de olhar o mundo,
mas tantas vezes eu tenho certeza de que posso voltar a ser criança, sem ser de verdade.
Isso é desfrutar da despreocupação da mente infantil e a liberdade adulta de fazer o que quer.
Ahhhh... Chegamos ao ponto crucial... O que quero.
O que a humanidade quer? O que pretendem os homens?
Prefiro me livrar da responsabilidade de responder tal pergunta tão infinita,
eu tantas vezes mudo de vontade, sou tantas mulheres ao mesmo tempo.
Respondam os outros o que querem. Eu nunca vou saber.