terça-feira, 27 de setembro de 2011

10 miojos e 2 lasanhas congeladas

Helena: E aí?
Beto: Ela me disse que eu só tinha mais 30 minutos de vida.
Helena: 30 minutos?
Beto: É.
Helena: Mas 30 minutos é muita coisa.
Beto: Que isso, Helena, 30 minutos num é nem um tempo de um jogo de futebol.
Helena: Beto, 30 minutos dá pra fazer 10 miojos e 2 lasanhas congeladas.
Beto: Era isso que você ia fazer com os seus últimos 30 minutos?
Helena não responde.
Beto: Helena, me diz... Se você só tivesse mais 30 minutos, você ia fazer 10 miojos e 2 lasanhas congeladas?
Helena: O que você ia fazer, Beto? Ia comprar batatas?
Beto: Ia ser interessante...
Helena: Ah, faça-me o favor!
Beto: Ué... Seria interessante, mas não seria isso que eu iria fazer.
Helena: O que então?
Beto: Eu ia procurar o amor da minha vida.
Helena: Em 30 minutos?
Beto: Que que tem?
Helena: Ai, Beto!
Beto: O que foi?
Helena: Coisa mais idiota de dizer...
Beto: Nossa, você já foi mais romântica.
Helena: E você já foi menos infantil.
Beto: Você acha o amor da sua vida infantil?
Helena: Eu não acredito em amor da vida desde que eu descobri que o homem da minha vida era gay.
Beto: Quer dizer que eu não sou o homem da sua vida?
Helena: Não.
Beto: Se eu tivesse mais 30 minutos agora, sabe o que eu faria?
Helena: Sexo!
Beto: Eu ia comprar batatas.

domingo, 18 de setembro de 2011

Antes que a feira acabe

BETO: Eu olho pra essa parede e eu n entendo nada... Helena, eu não entendo nada!
HELENA: Com tanto lugar pra gente morar, ne?
BETO: É...
HELENA: O pior de tudo isso é que tem coisas ruins aqui também... Eu queria lembrar só das coisas boas!
BETO: É... Eu também. As janelas.
HELENA: Se nós nos olharmos, já será suficiente, não precisamos lembrar.
BETO: Você é inacreditável. Helena, você é a mulher da minha vida, eu poderia ficar o resto dos meus dias aqui nesse apartamento olhando pra você e notando que, com todos os defeitos que eu já conheço em você, eu te amo. Mesmo que amanhã eu sinta carência de coisas que eu não posso encontrar em você e que eventualmente eu busque isso em outra mulher, sem concluir nada, apenas busque... Eu sei que eu te amo e que mais cedo ou mais tarde eu vou precisar de você. Mas agora eu preciso ir. Eu preciso comprar batatas.
HELENA: Eu também tenho um monte de coisas pra fazer, mas eu queria ficar aqui.
BETO: Helena, você não compreende? Eu preciso comprar batatas. A feira acaba em meia hora.
HELENA: Beto, eu queria que você fosse menos egoísta, que me amasse um pouco menos pra te alimentar e um pouco mais incondicionalmente.
BETO: Isso é impossível, meu amor.
HELENA: É, eu já sei o que você acha... Um belo dia sai de casa pra tomar um chopp com a sua amiguinha linda e metida a filósofa e ela te convence de que tudo que você faz na vida é pra você e só, simplesmente não há nada que se possa fazer pelo outro. Essa garotinha pensa que é quem? Einstein?
BETO: Não, Helena, Einstein acreditava que nós poderíamos nos livrar de nossos egos e ele estava errado.
HELENA: Não sei se foi exatamente isso que ele disse...
BETO: Eu preciso ir, as batatas me esperam.
HELENA: Eu sei, eu não estou te segurando. Com tanta coisa pra gente fazer, você tem que inventar de comprar batatas agora?
BETO: Mas se eu não comprar...
HELENA: A feira acaba... Compra depois, Beto, nas Sendas!
BETO: Prefiro que meu dinheiro vá pro bolso do Djanir do que pro senhor Sendas. Sei lá qual o nome do milionário que vive às custas das nossas compras do mês.
HELENA: E as caixas do supermercado? O Fulaninho Sendas paga o salário das coitadas, você prefere o Djanir? Ele é um só.
BETO: Qual é o problema de eu querer comprar na feira? Você acha que eu vou encontrar alguma mulher interessante lá e largar você? Eu quero comprar batatas, Helena, eu preciso... E além do mais, o Djanir é um cara incrível, você precisa conhecer. Ta vendo, agora a feira está quase acabando. Eu não consigo sair.
HELENA: Vai, Beto, vai comprar suas batatas. Um dia você acaba voltando.
BETO: Então é isso?
HELENA: É isso.
BETO: Você devia reformar o apartamento.
HELENA: Vai logo, antes que a feira acabe.
BETO: Eu vou. Adeus.
(agradecimentos: Karla Gasparini, Albert Einstein, Arthur Sendas e aos "Djanirs" que vendem seus peixes nas feiras da vida)

domingo, 11 de setembro de 2011

Animal irracional


Juvenal acorda exausto e irritado.  São 6 da manha de sábado e ele desperta, mas não porque mora muito longe do trabalho, nem porque teria uma reunião as 8, ele também não é nenhum escravo do sistema capitalista que trabalha de domingo a domingo sem ganhar um real... Juvenal se levanta de sua cama classe media, porque algum infeliz bate em sua porta enlouquecidamente, ininterruptamente. “Que inferno”, exclama. Dirige-se as pressas para a entrada de sua casa bagunçada, enquanto veste sua bermuda. Mas ao encostar a mão na maçaneta, Juvenal pensa... Quem poderia ser? A essa hora, certamente não seria alguém que lhe interessasse receber em casa. Poderia ser algum fanático religioso pregando as palavras de deus, ou quem sabe a síndica do prédio cobrando o pagamento do inflacionado condomínio, dinheiro certamente destinado `as plásticas e `a academia da dondoca do 401. “É, não valeria a pena abrir a porta” decide. Entretanto, não conseguiria dormir enquanto aquela pessoa não parasse de esmurrar seus tímpanos. Juvenal mete a mão na maçaneta num impulso. “Dane-se”, pensa. “Finalmente”, ela grita impaciente, adentrando o apartamento de Juvenal, sem nem perceber sua cara amassada. Ela certamente não havia dormido aquela noite, ainda dava pra sentir o cheiro do álcool. Ela se senta no sofá como se frequentasse aquela casa, livra-se de seus saltos e ascende um cigarro. “Então, Juvenal, eu tava passando aqui e me ocorreu: caraca, o Juvenal é um homem lindo, relativamente bem sucedido, bem nascido, afinal de contas, porque diabos seus pais te deram esse nome horroroso?“, ela pergunta com intimidade e sem nenhuma pena do homem, mas Juvenal, pra sorte dos dois, não havia prestado atenção em nenhuma das palavras indelicadas daquela mulher. Ele não queria saber muito bem o que ela tinha a dizer naquele momento, ele apenas prestava atenção naquelas belas pernas expostas por uma micro-saia que presenteava suas retinas. A essa altura, ele já não se importava de ter sido acordado brutalmente, queria mergulhar naquelas pernas. Ela era sempre tão séria, tão... coberta. Vestida com os padrões pudicos de uma advogada recém formada. Era a primeira vez que ele podia ver a mulher que tanto admirava tão sensual e bem no seu sofá. Indagava-se o que aquele furacão de mulher estava fazendo aquela hora do dia em sua casa, depois de uma noite certamente frustrada. Ela o observa esperando uma resposta para a sua pergunta sem sentido. “Quer uma água?”, ele pergunta. “Você certamente esta se perguntando o que eu vim fazer aqui, não é, Juvenal”, ela diz levantando-se e caminhando pra perto dele. “Posso te chamar de Ju?” ela pergunta. Ele faz que sim com a cabeça, não consegue reagir, um pateta! Nunca havia chegado tão perto dela. Ela percebe o nervosismo dele e ri. De repente ela se dá conta de que nenhum dos homens que haviam importunado seus ouvidos durante a noite a desejavam tanto quanto Juvenal, tremulo. Decidida a alimentar seu ego, ela agarra a gola da blusa daquele homem sem ação e tasca-lhe um beijo decididamente demorado, desses de final de filme, manchando a boca dele com seu batom vermelho. Os dois se deliciam durante alguns instantes, e no meio daquele beijo, Juvenal que antes flutuava nas nuvens, começa a se sentir o homem mais idiota do mundo. “Que imbecilidade da minha parte nunca ter beijado essa mulher”, ele não sabia o nome dela e também não se preocupava com isso nesse momento. Aquelas bocas se entendiam melhor do que qualquer outro par. Foi o melhor beijo da vida daquele recente casal. Mas Juvenal, movido por um orgulho masculino irracional, estava prestes a fazer a maior burrada de sua existência medíocre, da qual se arrependeria ate o fim de seus dias. “Eu não devia ter feito isso!”, pensaria ele aos 83 anos, ao lado de Wandinha, com quem ficou casado durante longos e entediantes anos sem muitos riscos e aventuras. Mas ele fez. Xingando-se por dentro, sentia-se um banana, aquela mulher que ele desejava, sonhava e tocava punheta pensando nela há 3 anos havia tomado uma atitude que ele, em seus inseguros 28 anos de vida nunca tinha tido coragem de tomar. Ele não havia nem ao menos notado o interesse dela por ele. Precisava agir, pra sentir-se homem, sentir-se dono daquela situação. Sem muito pensar, Juvenal, imbecil, pega aquela mulher nos braços, a porta de sua casa ainda aberta e ele a coloca pra fora. Fecha-se em seu apartamento sentindo-se o homem mais seguro e desejado do mundo. Que animal, Juvenal. O irracional ainda abre a porta novamente, beija a boca dela, que aceita, mas não entende, bate a porta de novo e respira aliviado. Exalando testosterona, o imbecil do Juvenal exclama: sou foda!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sombra

Ela se sentia fora de si, como se a alma e o corpo estivessem brigando e não pudessem mais dividir o mesmo espaço. Ela, mora numa casa de vinhos. Usa um vestido vermelho bem curto e colado no corpo, pó saindo pelas narinas, não aguenta o mundo real... Cabelos negros e desgrenhados, sorriso infantil, olhar perdido. Ela se mata aos poucos, não entende sua própria importância. E as pessoas ao redor a observam e querem ouvi-la. Há também uma torcida constante pra que ela esteja sempre tropeçando em suas próprias pernas. Ela já não sabe se amar. Bebe-se, fuma-se, cheira-se, vai sendo consumida por substâncias venenosas que se instalam nas esquinas de seu corpo e a corroem por dentro. A fumaça espera que ela acenda o cigarro, o vinho grita seu nome, mas ela, como poucas vezes na vida, ignora. Sozinha em sua casa de vinho, ela mergulha num punhal.