domingo, 18 de setembro de 2011

Antes que a feira acabe

BETO: Eu olho pra essa parede e eu n entendo nada... Helena, eu não entendo nada!
HELENA: Com tanto lugar pra gente morar, ne?
BETO: É...
HELENA: O pior de tudo isso é que tem coisas ruins aqui também... Eu queria lembrar só das coisas boas!
BETO: É... Eu também. As janelas.
HELENA: Se nós nos olharmos, já será suficiente, não precisamos lembrar.
BETO: Você é inacreditável. Helena, você é a mulher da minha vida, eu poderia ficar o resto dos meus dias aqui nesse apartamento olhando pra você e notando que, com todos os defeitos que eu já conheço em você, eu te amo. Mesmo que amanhã eu sinta carência de coisas que eu não posso encontrar em você e que eventualmente eu busque isso em outra mulher, sem concluir nada, apenas busque... Eu sei que eu te amo e que mais cedo ou mais tarde eu vou precisar de você. Mas agora eu preciso ir. Eu preciso comprar batatas.
HELENA: Eu também tenho um monte de coisas pra fazer, mas eu queria ficar aqui.
BETO: Helena, você não compreende? Eu preciso comprar batatas. A feira acaba em meia hora.
HELENA: Beto, eu queria que você fosse menos egoísta, que me amasse um pouco menos pra te alimentar e um pouco mais incondicionalmente.
BETO: Isso é impossível, meu amor.
HELENA: É, eu já sei o que você acha... Um belo dia sai de casa pra tomar um chopp com a sua amiguinha linda e metida a filósofa e ela te convence de que tudo que você faz na vida é pra você e só, simplesmente não há nada que se possa fazer pelo outro. Essa garotinha pensa que é quem? Einstein?
BETO: Não, Helena, Einstein acreditava que nós poderíamos nos livrar de nossos egos e ele estava errado.
HELENA: Não sei se foi exatamente isso que ele disse...
BETO: Eu preciso ir, as batatas me esperam.
HELENA: Eu sei, eu não estou te segurando. Com tanta coisa pra gente fazer, você tem que inventar de comprar batatas agora?
BETO: Mas se eu não comprar...
HELENA: A feira acaba... Compra depois, Beto, nas Sendas!
BETO: Prefiro que meu dinheiro vá pro bolso do Djanir do que pro senhor Sendas. Sei lá qual o nome do milionário que vive às custas das nossas compras do mês.
HELENA: E as caixas do supermercado? O Fulaninho Sendas paga o salário das coitadas, você prefere o Djanir? Ele é um só.
BETO: Qual é o problema de eu querer comprar na feira? Você acha que eu vou encontrar alguma mulher interessante lá e largar você? Eu quero comprar batatas, Helena, eu preciso... E além do mais, o Djanir é um cara incrível, você precisa conhecer. Ta vendo, agora a feira está quase acabando. Eu não consigo sair.
HELENA: Vai, Beto, vai comprar suas batatas. Um dia você acaba voltando.
BETO: Então é isso?
HELENA: É isso.
BETO: Você devia reformar o apartamento.
HELENA: Vai logo, antes que a feira acabe.
BETO: Eu vou. Adeus.
(agradecimentos: Karla Gasparini, Albert Einstein, Arthur Sendas e aos "Djanirs" que vendem seus peixes nas feiras da vida)

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