quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

casulo

Não é isso... Eu acho lindo o seu desenho, são belas as formas... Mas, por alguma razão eu desconfio. Eu desconfio, Maria, me desculpa. Tem alguma coisa nessa imagem que me faz questionar os meus próprios átomos. E obrigada por isso. É que eu acho que é preciso saber se a imagem que você desenha é real, Maria... E aí é a hora certa de quebrar o espelho. A imagem tem que ser composta de outras pessoas também. Ser híbrido é irrecusável. Não rotule, Maria, não faça isso com você, nem com seu denho.  Aquelas caixas onde enfiam pessoas com opiniões parecidas, ou gostos, ou opções... Aquelas caixas devem ser quebradas. Não as deseje. É que eu vejo você vestir pensamentos que nem sempre são seus pra afirmar sua nova postura diante do mundo, ou mesmo quando você usa as suas ideias, nem sempre eu vejo você. É como o seu desenho, muito contornado... É foda ser. Porque nunca é, o hoje perdeu o eu de ontem e amanhã, o eu de hoje já terá se perdido também. Então desista, Maria, não se procure mais. Apenas seja e se transforme sempre.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Precipitar

Não me fale de amor na quarta-feira, espere que ela acabe e que o povo guarde suas fantasias no armário embutido.
E que no próximo bloco, as serpentinas caiam com mais cuidado sobre os rostos pintados de purpurina. Não me mostre hoje sua máscara real, eu só quero ver sua maquiagem. Não se dispa das cores que você inventou pra cruzar com amores breves, foi essa a isca que me atraiu. Deixa que as cinzas encerrem esse assunto, que venha a quinta-feira e nos mostre o que é real.
Se a gente conseguir atravessar a barreira que nos prendeu nesse mundo inventado, se a gente conseguir se encontrar no mundo onde as imagens são um pouco mais definidas e as cores parecem palpáveis, onde a ilusão é disfarçada de verdade... Se chegarmos lá... Eu juro que te dou a mão e aprecio seu verdadeiro rosto.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

borboletar

Voava pelos cantos de um teatro improvisado e esbarrava em paredes que não queria encontrar.
Os olhos das pessoas precisavam de cores novas, de belos voos, belas asas.
O que se escondia no silêncio era a vontade conjunta de concretizar, de saciar os curiosos, de oferecer o espetáculo que todos esperavam.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Derreter

Nos seus olhos eu vejo um pedaço do meu céu. No beijo, o encaixe e o mergulho profundo de nós. No cheiro, o desejo eterno dos corpos. Nos braços, um leito. No peito, um amor ideal. Nossos planos na areia, numa casa de sal, com gostinho de calor de verão intenso, imenso balanço infinito a dois. No telhado nos amamos e nossas almas, refletindo a lua, se uniram num outono denso de brisa fresca acalentando nossos esforços em fazer dos nossos corpos um só. Mas o dia amanheceu trazendo consigo a luz que já me mostrava outro verão em seus olhos marcados, ainda belos, porém manchados de uma nuvem escura e repentina. Seus belos contornos parecem profundos, o que havia naquelas feições? O que eu via naquelas manhãs? E no outono novo, as folhas cairam no chão. Naqueles beijos, rotina. Naquele rosto, defeitos. Naqueles braços, incômodo. Naqueles corpos, quietude. Naquele leito, um casal se desfaz.