quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Passarinho na gaiola não é passarinho



Piu piu piu, canta o passarinho todas as manhãs, de dentro de sua gaiola, sua pequena jaula que o impede de conhecer o mundo, mas que não o tira o direito de saber que o sol estava chegando. Ele conhece tanto o mundo à sua volta, que mesmo sem explorá-lo, pode senti-lo e se conectar com ele. E toda vez que a menina aproxima sua mão daquelas grades, ele canta pedindo socorro, suplicando liberdade. Ela sorri, como se pudesse compreendê-lo, mas por mais alto e frenético que fosse seu apelo, eles não falam a mesma língua. Ela o vê com ternura, carinho e amor, ele a vê como culpada por sua reclusão, uma sequestradora de sua liberdade, a odeia completamente. Sonha em desvendar os mistérios que suas asas permitiriam e todo dia, pensa em como escapar da prisão. Ele não faz sentido sem voar. Até que um dia, uma manhã sem cor, um céu desesperançoso, o passarinho não se move mais, não canta, não esboça nenhuma reação com a aproximação da menina que tanto o ama. Ela observa os olhos do bichinho que aprisionara em seu amor e finalmente entende o seu egoísmo. Movida por um sentimento intenso e ambíguo, ela decide abrir mão da companhia daquele pequeno indefeso em nome de sua felicidade, devolver o direito do pássaro. Abre a portinha que o separava de sua essência e vai embora com lágrimas nos olhos. O pequeno, incrédulo, se aproxima da saída do cárcere e encara a imensidão do céu, as cores que a natureza pintava em suas retinas, as formas e as curvas da vida. Enxerga agora sem o obstáculo das grades, ele observa as árvores e os bichos desfrutando de sua liberdade e esboça batidas de asas. Poderia ficar ali, naquela porta presenteando sua visão com todas aquelas descobertas, mas um desejo incontido o faz sacudir sua estrutura sem que ele pudesse controlar seus movimentos. Anseia por sentir o ar por entre suas penas. Subitamente, dá-se conta da distância que o separa do chão, o que o atira para o fundo da gaiola. Fica inerte rendendo-se ao medo, fecha os olhos e se encolhe de pavor... Mas logo respira, toma coragem e volta para o limite entre a jaula e o mundo. Bate mais algumas vezes as suas asas, preparando-se para nunca mais voltar àquele cubículo, mas ele não consegue se aproximar do céu. Pois resolve traçar antes uma meta e se pergunta: pra onde eu quero voar? Pra onde eu quero voar? Essa questão ecoa infinitamente sem resposta, até que opta por um plano a curto prazo: primeiro eu vou voar até aquela árvore. É aí que ele se lança no ar e bate freneticamente suas belas asas e se despede de sua gaiola em queda livre ao chão. Machuca-se, sente-se um outro bicho, que não um com asas. Não compreende seu fracasso. Insiste. Nada. Nem uma ameaça de vitória contra a gravidade. Percebe que todo o seu anseio que perdurou ao longo de sua existência era vão. Por uns instantes, ele quer voltar pra seu conforto, sob os cuidados daquelas mãos carinhosas que o protegiam dos perigos, das quedas, mas rapidamente se motiva em sua perseverança: dentro de uma gaiola eu não sou um pássaro. Aquele pequeno e frágil bichano prefere a morte à não ter o direito de vida. Se não pode voar, é com suas patas que vai se locomover e finalmente conhecer o mundo que o rodeia, ainda que isso o leve ao fim. Caminhando em suas patas, o pássaro vai embora definitivamente, decidido a bater suas asas todos os dias até ser capaz de honra-las, alçar voo e descobrir o seu destino.

Stephanie Serrat

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