domingo, 11 de setembro de 2011

Animal irracional


Juvenal acorda exausto e irritado.  São 6 da manha de sábado e ele desperta, mas não porque mora muito longe do trabalho, nem porque teria uma reunião as 8, ele também não é nenhum escravo do sistema capitalista que trabalha de domingo a domingo sem ganhar um real... Juvenal se levanta de sua cama classe media, porque algum infeliz bate em sua porta enlouquecidamente, ininterruptamente. “Que inferno”, exclama. Dirige-se as pressas para a entrada de sua casa bagunçada, enquanto veste sua bermuda. Mas ao encostar a mão na maçaneta, Juvenal pensa... Quem poderia ser? A essa hora, certamente não seria alguém que lhe interessasse receber em casa. Poderia ser algum fanático religioso pregando as palavras de deus, ou quem sabe a síndica do prédio cobrando o pagamento do inflacionado condomínio, dinheiro certamente destinado `as plásticas e `a academia da dondoca do 401. “É, não valeria a pena abrir a porta” decide. Entretanto, não conseguiria dormir enquanto aquela pessoa não parasse de esmurrar seus tímpanos. Juvenal mete a mão na maçaneta num impulso. “Dane-se”, pensa. “Finalmente”, ela grita impaciente, adentrando o apartamento de Juvenal, sem nem perceber sua cara amassada. Ela certamente não havia dormido aquela noite, ainda dava pra sentir o cheiro do álcool. Ela se senta no sofá como se frequentasse aquela casa, livra-se de seus saltos e ascende um cigarro. “Então, Juvenal, eu tava passando aqui e me ocorreu: caraca, o Juvenal é um homem lindo, relativamente bem sucedido, bem nascido, afinal de contas, porque diabos seus pais te deram esse nome horroroso?“, ela pergunta com intimidade e sem nenhuma pena do homem, mas Juvenal, pra sorte dos dois, não havia prestado atenção em nenhuma das palavras indelicadas daquela mulher. Ele não queria saber muito bem o que ela tinha a dizer naquele momento, ele apenas prestava atenção naquelas belas pernas expostas por uma micro-saia que presenteava suas retinas. A essa altura, ele já não se importava de ter sido acordado brutalmente, queria mergulhar naquelas pernas. Ela era sempre tão séria, tão... coberta. Vestida com os padrões pudicos de uma advogada recém formada. Era a primeira vez que ele podia ver a mulher que tanto admirava tão sensual e bem no seu sofá. Indagava-se o que aquele furacão de mulher estava fazendo aquela hora do dia em sua casa, depois de uma noite certamente frustrada. Ela o observa esperando uma resposta para a sua pergunta sem sentido. “Quer uma água?”, ele pergunta. “Você certamente esta se perguntando o que eu vim fazer aqui, não é, Juvenal”, ela diz levantando-se e caminhando pra perto dele. “Posso te chamar de Ju?” ela pergunta. Ele faz que sim com a cabeça, não consegue reagir, um pateta! Nunca havia chegado tão perto dela. Ela percebe o nervosismo dele e ri. De repente ela se dá conta de que nenhum dos homens que haviam importunado seus ouvidos durante a noite a desejavam tanto quanto Juvenal, tremulo. Decidida a alimentar seu ego, ela agarra a gola da blusa daquele homem sem ação e tasca-lhe um beijo decididamente demorado, desses de final de filme, manchando a boca dele com seu batom vermelho. Os dois se deliciam durante alguns instantes, e no meio daquele beijo, Juvenal que antes flutuava nas nuvens, começa a se sentir o homem mais idiota do mundo. “Que imbecilidade da minha parte nunca ter beijado essa mulher”, ele não sabia o nome dela e também não se preocupava com isso nesse momento. Aquelas bocas se entendiam melhor do que qualquer outro par. Foi o melhor beijo da vida daquele recente casal. Mas Juvenal, movido por um orgulho masculino irracional, estava prestes a fazer a maior burrada de sua existência medíocre, da qual se arrependeria ate o fim de seus dias. “Eu não devia ter feito isso!”, pensaria ele aos 83 anos, ao lado de Wandinha, com quem ficou casado durante longos e entediantes anos sem muitos riscos e aventuras. Mas ele fez. Xingando-se por dentro, sentia-se um banana, aquela mulher que ele desejava, sonhava e tocava punheta pensando nela há 3 anos havia tomado uma atitude que ele, em seus inseguros 28 anos de vida nunca tinha tido coragem de tomar. Ele não havia nem ao menos notado o interesse dela por ele. Precisava agir, pra sentir-se homem, sentir-se dono daquela situação. Sem muito pensar, Juvenal, imbecil, pega aquela mulher nos braços, a porta de sua casa ainda aberta e ele a coloca pra fora. Fecha-se em seu apartamento sentindo-se o homem mais seguro e desejado do mundo. Que animal, Juvenal. O irracional ainda abre a porta novamente, beija a boca dela, que aceita, mas não entende, bate a porta de novo e respira aliviado. Exalando testosterona, o imbecil do Juvenal exclama: sou foda!

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