domingo, 2 de outubro de 2011
A beleza das asas
Enquanto toda a humanidade assistia pela tv os gritos estranhos de pessoas sofridas, jogando-se das janelas de um enorme prédio burguês em chamas, ela se levantava de um sono profundo e tranquilo. Seus olhos brilhavam como os de um bebê recém nascido. Ela era dona da juventude eterna, a leveza da alma. Afagava sua própria pele para suprir a ausência de um carinho qualquer, que se perdera pelas tentações que estão sempre nos esperando em alguma garrafa de desespero. Ela sempre se livrava daquilo que não mais poderia fazer bem aos seus 20 anos. Uma menina com cheiro de virgindade, embora já tivesse se entregado pra alguns barbudos... Uma mulher inflamável, quando optava por isso. Ela poderia caber num copo de wisky, num doce gosto de chocolate debaixo das cobertas, numa cena Almodóvar, nas flutuantes palavras buarquianas... Ela era tantas... Seus lençois perolados a disputavam com olhares de desejo, ou de inveja. Ela podia perceber, mas ela tinha o poder de escolher quem ela queria vestir hoje e quem ela queria devorar, só que o poder maior estava em escolher o que ela queria enxergar e escutar. Ela sabia com muita precisão que nos olhos e ouvidos de toda a humanidade mortal existiam portas, tão ignoradas que muitas delas nunca haviam sido abertas, nem ao menos tocadas. Maçanetas intactas. Isso era o poder, era saber. Tamanho era seu domínio nesse assunto, que ela era capaz de possuir pessoas com facilidade. Podia atrair quem quisesse pra sua teia, como uma viúva negra. Mas não era isso que fazia. Ela simplesmente tinha consciência desse poder, mas não utilizava pra fins totalmente egocêntricos, não desejava ferir ninguém. Pretendia alimentar seu ego, pois não há outra alternativa nessa vida, mas sem que outros egos fossem prejudicados. Fingia-se normal, para se manter sociável, fingia-se igual, não gostava de camisas de força. A menina, tão nova, já possuia asas e voava discretamente, sobre as pequenas cabeças de todos os outros.
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Amei isso! Linda! Que raiva q vc vai! Mas q bom q sei q volta!
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